Domingo, 11 Janeiro 2015 18:42

Uma Viagem Maluca

 
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Meu companheiro de viagem chamava-se Kim Chong Ik. Era simplesmente conhecido como “Kim”, entre os colegas universitários.

Coreano, era de estatura baixa para os padrões americanos. Tinha cabelos bem pretos, lisos, e cabeça que fazia lembrar a de um paraibano, porém de rosto oriental, achatado, e com olhos amendoados. Era de Seoul, de família que migrara da Coreia do Norte.

A Coreia do Norte fora um grande centro cristão, depois da guerra com os japoneses. Os cristãos ali - evangélicos e católicos - tinham liderado a resistência à invasão japonesa, de modo que ser cristão naquela época era sinônimo de ser patriota. Isso logo mudaria, com a invasão pelos coreanos comunistas, que migraram para a China durante a guerra, e voltaram com toda força - em junho de 1950 - apoiados por um exército chinês de dois milhões de soldados. Esse fora o começo da Guerra da Coréia, que custou dezenas de milhares de vidas de soldados americanos. Os cristãos fugiram. Os que não fugiram foram trucidados, ou colocados em campos de concentração para serem “reeducados”. Hoje vemos a Coreia do Norte de Kim Il Sung, militarizada, faminta e fanatizada por um sistema de educação de massas que destrói a alma das pessoas.

Kim estudara em um colégio missionário presbiteriano em Seoul, e obtivera bolsa integral para a faculdade de estudos superiores King College, também presbiteriana, localizada em Bristol, Va./Tem - cidade “dicótoma”, dividida entre os estados da Virginia e Tennessee. Era excelente estudante, constantemente agarrado aos livros – dia e noite. Para estudar tinha de se esconder dos colegas barulhentos do dormitório masculino. Ia estudar no porão do dormitório feminino, onde estava localizado o escritório do jornal estudantil, pouco frequentado por quem quer que fosse. As menções que obtinha, evidentemente eram as melhores possíveis – equivalentes a SS em tudo.

Kim fizera amizade com um capelão do exército americano na Coreia, de Greensboro, Carolina do Norte. Greensboro era então um grande centro de presbiterianismo, de onde vieram verbas para a construção do Colégio Quinze de Novembro, em Garanhuns, onde eu estudara no Brasil. Assim, quando ele me convidou a ir com ele até Greensboro, aceitei sem titubear. Era uma loucura, pois nem ele nem eu tínhamos verbas suficientes para ir e voltar de ônibus.

A ida não foi tão mal, pois conseguimos carona com colegas que iam naquela direção. O problema foi a volta, pois não tínhamos a menor ideia do mapa da estrada, nem sabíamos que por 50 centavos poderíamos comprar um mapa em qualquer posto de gasolina. Estávamos como dois hebreus, perdidos no deserto da Arábia. Finalmente alguém nos indicou a saída da cidade, e o local onde poderíamos buscar carona de volta a Bristol.

Encontramos uma carona, mas essa não ia até Bristol, pois logo adiante mudaria de rota em direção oeste, ao passo que queríamos ir para o leste. Fomos até uma pequena vila, no topo de uma montanha, onde o motorista nos informou que poderíamos tomar a direção leste, a partir de certo ponto da estrada. Lá ficamos na esperança de encontrar carona, mas sem obtermos nenhuma. Ficamos horas e horas naquele ponto, sem que ninguém nos oferecesse carona. Os carros passavam em alta velocidade, sem parar ou diminuir a marcha. Em breve um carro Buick do último ano passou bem devagar, e notamos que o motorista e passageiro nos observavam muito cuidadosamente. Pouco depois o mesmo automóvel tornou a passar, e as pessoas nela nos observavam da mesma maneira. Cheguei a pensar que se tratava de um carro de polícia não marcado, que estava de olho em nossas pessoas. Não era.

Depois da “enésima” passada por nós, o Buick parou e o motorista perguntou se queríamos carona para Johnson City, que fica bem perto de Bristol. Aceitamos tal oferta, visto que o sol já se punha e imaginamos que íamos passar a noite ali, na beira da estrada.

Ao entrarmos no automóvel, descobrimos que o assento do mesmo estava cheio de garrafas de uísque, e de gim Beef Eaters. Disseram-nos que simplesmente as colocássemos no assoalho do veículo. Depois de muitas perguntas, nos informaram que estávamos em um lugar muito perigoso. Muitos dos homens ali, eles disseram, tinham lutado no Oriente. Foram prisioneiros dos japoneses, tendo sofrido torturas e maus tratos de todo o tipo. “Vocês corriam o risco de um deles dar-lhes um tiro”, nos disseram. "Mas eu não sou japonês”, argumentou Kim. “Pode ser verdade”, disseram, “mas você tem cara de oriental, e antes que você pudesse lhes mostrar seu passaporte lhe dariam um tiro.” Nesse momento eu passava por japonês também, ameaçado de levar tiro.

Começaram então a nos contar da selvageria do povo daquela localidade. Certa vez - assim alegaram - um jovem negro do Norte, “onde negro não respeita branco”, andara por lá assoviando para as moças brancas. Os homens locais o agarraram, deram-lhe uma surra, e o amarraram com uma corda presa a um carro, que o puxou por toda a cidade até que nada lhe restava exceto os ossos. A história era a mesma que fora usada por Erskine Caldwell, escritor sulista. Pensei até que eles estavam querendo nos amedrontar com a história de Caldwell, mas raciocinei que esses eram homens rudes e ignorantes, e que o que nos contavam fora provavelmente o crime que aquele autor sulista descrevera em sua história de violência contra os negros, e que a mesma realmente acontecera.

O motorista do carro Buick que nos dera carona estava embriagado, constantemente bebendo de uma garrafa de gim, e manobrava o carro em alta velocidade, ziguezagueando de montanha abaixo. Eu morria de medo, mas Kim estava impressionado, e dizia “boy, he is a good driver” – cara, ele é um bom motorista. Esse bom motorista passou a noite entrando em pequenas estradas, para entregar suas garrafas de bebida alcoólica, e sempre mamando na dele.

Quando já era alta madrugada chegamos a um restaurante de beira-de-estrada e eles disseram que iam entregar ali as últimas garrafas, e que logo voltariam. Esperamos o que nos pareceu mais de uma hora. O sol já clareava, e eles não apareciam. Por isso entramos no restaurante, e os encontramos sentados a uma mesa, bebendo gim com vários outros homens. “Aí estão os japoneses”, falou o motorista. “Eu tinha me esquecido deles”. Saimos então em disparada, para Johnson City, a fim alcançar o ônibus da Greyhound, das 7 horas, que nos levaria a Bristol. O ônibus já tinha partido, de modo que o motorista continuou em alta velocidade até que o alcançamos, e fez sinal para que o mesmo parasse. Dissemos adeus ao “bom motorista”, e entramos no ônibus. Finalmente descansei. Dei um suspiro de alívio e me recostei na poltrona macia daquele ônibus ar condicionado, com motorista sóbrio e sorridente. Pela graça de Deus chegamos são e salvos à faculdade, em tempo para a primeira aula do dia.

Há um ditado americano que diz: “Deus em sua misericórdia divina sempre protege as criancinhas, os bêbados e os idiotas”. Eu e Kim sem dúvida nos qualificávamos como pertencentes àquela última categoria, tendo exposto nossas vidas daquela maneira, para poupar o preço de uma passagem de ônibus.

Kim foi depois admitido na pós-graduação da Universidade de Illinois, onde deve ter de tal maneira se distinguido como aluno, que permaneceu nela como professor titular de ciências políticas, até que se aposentou aos 65 anos de idade, com muita festa e o título de “Professor Emeritus”. Faleceu no mesmo ano, e aqui rendo meu respeito ao mesmo, que foi também um “caronista emérito”, na sua mocidade. “De médico e louco, todos temos um pouco”.

Lido 1079 vezes Última modificação em Sábado, 23 Maio 2015 18:41
David Gueiros Vieira

PHD em História da América Latina, Mestre em história dos Estados Unidos da América, conferencista e um dos maiores especialistas brasileiros em História da Questão Religiosa do Brasil.