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O destino faz curvas Gervásio de Paula
Tarde quente de 2 de Abril de 1964. Tropas nas ruas. Em cada esquina soldados armados até os dentes. Transitando mudos nas calçadas, homens e mulheres. Do trabalho para casa, de casa para o trabalho. Com bolsas de documentos, produtos de beleza, boletos e carnês de contas a pagar. Na cabeça o temor do que fazer para completar o orçamento doméstico. Idosos arrastando-se de bengalas escuras. Vendedores ambulantes calados, sem saber o que apregoar em meio a tanta ostentação. Idosas rezando em casa, para nada de ruim acontecer aos seus netos, nas faculdades, nas escolares públicas, particulares, nas ruas e na volta para casa. Às portas de algumas lojas populares ouviam as últimas notícias sobre a consistência do "golpe" de 64. Jornais golpistas - em um dos quais eu trabalhava - mancheteavam a vitória da "revolução" e a volta à "democracia", contra o sindicalismo "comunista". A pátria estava salva. No Rio de Janeiro delegações de estudantes, trabalhadores e militantes se reuniam em congressos, assembleias, manifestações de rua, tentando resistir ao "golpe" que se tornara irreversível. Era repórter. Trabalhava num jornal cujo dono apoiara a quartelada até a medula. Eu sabia de dois jornalistas amigos-irmãos, dos quadros do então clandestino PCB - Inácio de Almeida e Frota Neto - no Rio. Cedo pensei em esconder seus livros "subversivos". Vizinho ao Elegante Bar, de meu pai, à rua Pedro Pereira - entre Floriano Peixoto e Assunção - havia a Loja de Móveis Carvalho Borges Um de seus motoristas bebia no bar e era muito amigo de meu pai. Como encontrá-lo naquele furdunço social? Liguei para a hoje historiadora e socióloga Luciara Aragão. Então, noivinha em folha, do jornalista Frota Neto. Marcamos encontro na Praça do Ferreira, mesmo pelo telefone. Lá pensávamos em escuta telefônica. Imaginava que ela tinha carro. Ao chegar, em frente à Farmácia Osvaldo Cruz, perguntei-lhe pelo carro. Sorriu... Aí a tensão aumentou. Mas o destino tem suas curvas e não nos oferece só o que é ruim. De repente desponta um carro de corrida de cor branca. Demos sinal. Agradável surpresa. Era o motorista da Carvalho Borges. Pedimos ajuda para uma missão importante. Solidariedade não tem dimensão. "Dê as ordens", a resposta. Primeiro ao apartamento do Frota, em frente à primeira sede do BNB, à rua Senador Pompeu. Juntamos os livros e papéis. Depois à casa do Inácio, à rua Quintino Bocaiuva, por trás da Igreja do Otávio Bonfim. Apanhamos também livros e borrões. Levamos, por sugestão da Luciara, à casa de seu tio, à rua Major Facundo. Disseram não, quando souberam de que se tratava. Então falei: "Luciara, fique na Praça do Carmo, que vou me virar". Calculei quanto havia no bolso do salário que recebera do jornal dois dias antes do golpe. Perguntei quanto custava a corrida toda. O taxista respondeu: "Deixe comigo". Fomos à Maraponga, onde meu pai morava. Lá, agradeci ao motorista. Meu pai usou umas latas grandes de querosene Jacaré e colocou os livros - inclusive os meus - em todas. Lacrou-as com cera de carnaúba, a exemplo dos agricultores com estoques de feijão, para o gorgulho não estragar. Enterrou-as no fundo do quintal. Dois dias depois o DOPS - ainda não existia a Polícia Federal - foi ao apartamento do Frota. Reviraram tudo e nada encontraram. Na casa do Inácio foi a mesma coisa. Vasculharam tudo. Nada encontraram. Não houve provas que pudessem incriminar os repórteres. Escondi-me num sítio nas proximidades do município de Pentecostes - até o general Castelo Branco tomar posse - onde morara minha família. Meu pai depois revelou-me que o motorista fora levado para o PCB - de onde era membro clandestino - dois anos antes do golpe. Nunca me falara.
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