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VENEZUELA X EUA: LONGE DO ESPELHO

Luciara de Aragão
Embora Caracas tenha se tornado um problema contínuo para
Washington à época da administração Bush, o
significado do desafio venezuelano permanece um
interrogante. Definir o que o presidente Hugo
Chavez pretende, enquanto está em construção o
que se denomina “revolução bolivariana”, em seu
país, poderia, talvez, ser uma investigação
distante dos interesses norte - americanos. O
tema prende o interesse e sua análise está
sempre - o que é ótimo - relacionado às mais
diversas óticas.
Não se pretende ignorar que a Venezuela e os Estados Unidos,
embora de modos diversos, têm um interesse comum
a ligá-los: o fio do petróleo. Em primeiro
lugar, a ligação Caracas-Havana tornou-se íntima
com Cuba, e Chavez vem estimulando e
influenciando muitos países latinos americanos,
o que não parece ser do agrado de Washington.
Chavez chegou ao poder (1999) por uma eleição democrática.
Na prática, desmontou o status quo
vigente que dominava a Venezuela durante anos.
Como oficial do exército, já havia conduzido uma
tentativa fracassada de golpe, em 1992 ,e esteve
na prisão por isso. O seu caminho para a
presidência, entretanto, não foi marcado por uma
ideologia clara, além das divergências com o
regime existente. Sua continuidade no governo
foi um desmentido a convicção existente no
momento de sua eleição, de que ele simplesmente
seria o criador de mais um episódio sem solidez
na América Latina. Mais além, pensava-se que seu
linguajar abrupto e jactancioso era um tipo de
modismo e eram alimentadas as suposições que
Chavez seria rapidamente corrompido pelas
oportunidades abertas a ele e aos que o levaram
ao poder como presidente. A par disso,
imaginava-se que cederia às tentações de
enriquecimento ilícito, permitindo negócios
irregulares dos quais se beneficiaria.
Tratava-se de um engano, pois apesar de suas
falas excêntricas e ausência de traquejo
diplomático, a exemplo de outros presidentes,
dentro e fora da América Latina, ele sempre
percebeu a importância potencial da Venezuela, e
não só como país exportador de petróleo.
A Venezuela é um dos principais exportadores do produto, com
uma companhia nacional a Petróleos Venezuela
S.A. (PDVSA), com domínio da técnica de refino,
e a varejista Petróleo de Citgo Corp. O
petróleo, contudo, não vem representando a
redenção da Venezuela e, por isso, tantas vezes,
seus governantes tentaram diversificar a
economia nacional, mesmo permanecendo o petróleo
como o seu grande esteio. Em outras palavras, o
estado venezuelano continua a confundir-se com a
sua própria indústria petroleira. Assim, não tem
sido fácil ao presidente Chavez enfrentar um
desafio de tal envergadura. O primeiro grande
problema centrou-se na forma como deveria ser
usada a renda do petróleo; o segundo a ser
equacionado era o de estabelecer o nível
permitido às companhias estrangeiras do produto,
com respeito à influência na indústria no país.
Ao ser eleito presidente, Chavez já havia prometido às
massas venezuelanas uma melhor divisão e
distribuição da renda do petróleo necessária ao
financiamento de uma série de inadiáveis
benefícios sociais. È provável que, do ponto de
vista presidencial, o tema da divisão de renda
do petróleo versasse em torno de uma possível
apropriação indébita por parte da alta classe
venezuelana e as companhias estrangeiras de
petróleo. Assim, a política de benefícios
sociais, na qual o governo apostava ,levou-o a
mover o aparato técnico de PDVSA e a atuar
contra as companhias estrangeiras.
Aliada a uma oposição interna crescente, surgiu-lhe um
dilema adicional vinculado às suas atuações na
produção petroleira. É que, para fortalecer a
sua base política, Chavez necessitava das rendas
oriundas do petróleo e, por sua vez, de
investimentos no setor. Sua política necessitava
cumprir metas desfavorecidas pelo clima
político, que lhe era adverso, o que não
estimulava o investimento das companhias
estrangeiras de petróleo no país. Por outro
lado, a PDVSA e seus peritos técnicos tinham
dificuldades em operar nos níveis anteriores de
produção obtidos, dificultando a estratégia
política de Chavez.
Dois episódios o favoreceram e resolveram o dilema em favor
dele. Em primeiro lugar, um mal preparado e
curto golpe contra não vingou (abril de 2002).
Sua captura e envio para uma ilha, subestimaram
e facilitaram, por disputas superficiais
internas, a sua volta ao poder. Chavez voltou a
Caracas e ao palácio presidencial de Miraflores,
reassumindo o governo menos de 48 horas depois
de iniciado o levante.
O golpe frustrado permitiu ao presidente Chavez a criação de
uma plataforma contrária aos Estados Unidos. De
fato, ele nunca se pronunciou a favor dos norte
americanos, mas os rumores de inspiração daquele
país permitiu-lhe reivindicar o feito como
uma tentativa dos Estados Unidos para o
derrocar. Não se pode comprovar a suspeita, mas
as anteriores ações da CIA na América do Sul
tampouco o desautorizam. Por outro lado, as
ações da CIA na região resultaram competentes.
Assim, a reivindicação de Chavez não era tão
improvável. Seus seguidores acreditaram, e o
feito fez crescer e ampliar a sua base de apoio,
atraindo patriotas venezuelanos que, com
justiça, abominam a interferência americana nos
seus negócios internos.
Afortunadamente, Chavez foi beneficiado, num segundo
momento, pela alta de preços do petróleo. As
especulações sobre ter sido possível o
desmoronamento do se governo debaixo de pressão
social, caso os preços mundiais de petróleo
tivessem permanecido baixos, pode ser
verdadeira. Embora a Venezuela tenha ainda
problemas econômicos significativos e a
tecnologia de ponta não presida a sua indústria
petroleira, a receita do petróleo, contudo,
confere-lhe espaço para muitas manobras.
O conjunto desses fatos proporcionou o fortalecimento das
aproximações com Cuba. Com a queda da União
Soviética, os cubanos tiveram cortados os
subsídios de petróleo e não possuíam condições
para compra frente aos preços ofertados pelo
mercado mundial. Ao proporcionar o petróleo a
Cuba, a Venezuela restabeleceu condições viáveis
para sustentar a economia cubana. Em troca deste
apoio, Chavez pode valer-se do maior recurso que
Cuba pode ofertar. Refiro-me ao aparato de
inteligência, racionalidade e segurança
altamente profissional disponível. Os Estados
Unidos não ignoram que Chavez usou peritos
cubanos na construção de seu sistema particular
de segurança, todo ele projetado para a sua
proteção pessoal e a do seu governo, bem como o
treinamento de pessoal venezuelano para os
mesmos fins. Inclusive, o forte tom
antiamericanista do presidente não dá sinais de
inquietar aos EUA. O rude tom adotado parece
pretender justificar algumas das atitudes
repressivas do governo Chavez, como a censura à
imprensa, medida que não se coaduna com um
governo democrático. O nível popular de
aprovação do presidente baseia-se no
melhoramento de algumas estruturas, como a da
saúde, numa cópia de algumas experiências
cubanas. Assim, a relação entre os governantes,
antecedentes ao golpe contra Chavez, favorece a
ambos. Leve-se em conta nesta análise que uma “democracia” controlada pode
apresentar índices de aprovação não confiáveis.
A elevação de Chavez ao cargo de presidente da Venezuela
coincidiu com um tipo de resistência à
globalização na América Latina. No início dos
anos da década de 1990, temas como
livre-mercado, reformas, comércio e
investimentos estrangeiros foram discutidos em
quase toda região, forçando posições dos
defensores da liberalização.. Países como a
Argentina, Brasil e Bolívia vivenciaram
problemas econômicos que se refletiram no seu
quadro político, mas o antiamericanismo como
bandeira permanecia subjacente. Na visão de
alguns analistas políticos dos EUA , o
sentimento latino- americano e marxista aparecia
mais quieto e silencioso nesse período, e ele só
reaparece sob um cunho populista com suas
doutrinas fundamentais em economias com
baixas possibilidades de evolução. Ele volta
com Chavez como bandeira. Acrescido da aliança
com Cuba, a esquerda vê em Chavez um tipo de
herói. Contudo, a impopularidade dos EUA na
região pode servir como isca, para que não se
tenha uma serena visão na verdadeira análise de
situações como a vivida pela Venezuela. Será
Chavez um herói? Buscará estabelecer um tipo
novo de liderança na América do Sul? Quais são
suas verdadeiras ambições? Com certeza elas
ultrapassam as medidas de ser declarado o mais
popular governante da Venezuela. Ora, a
revolução Bolivariana não o transforma num novo
Simon Bolívar.
Do ponto de vista concreto, a habilidade de Chavez para
desafiar os Estados Unidos é limitada. Pode
existir a ameaça ocasional de corte das
exportações de petróleo para os Estados Unidos,
mas a Venezuela também se prejudicaria, pois o
país é o maior mercado para o petróleo
venezuelano. Esta realidade torna um pouco sem
sentido conversações com a China e com outros
países sobre a criação de mercados alternativos.
Os venezuelanos poderiam absorver os custos de
transporte envolvidos na operação, vendendo para
China ou para a Europa, mas também se pode
esperar que os produtores que provêem,
atualmente, esses países trocassem as suas
próprias exportações para preencher as
necessidades dos Estados Unidos. Dificilmente a
Venezuela poderá sobreviver muito tempo sem as
suas exportações de petróleo. De fato, enquanto
o governo Chavez controlar a Citgo e o governo
dos EUA não estiverem tentando obter o seu
controle, a tendência é a de que continuem a
entenderem-se comercialmente.
Aparentemente, Washington não se preocupa com o que Chavez
deseja ou faz. Algo assim, como no final das
contas, o que conta mesmo é a continuidade do
fornecimento de petróleo aos Estados Unidos. Do
ponto de vista norte americano, Chavez , menos
que Fidel Castro, é simplesmente um pedregulho
no sapato de Washington, por não oferecer uma
ameaça séria. Como regra geral, a América do Sul
é tratada como zona fora de interesse de
Washington. Trata-se de certo ponto de consenso
na política dos EUA, balizada pelo senso
estratégico de sua política externa. Assim, só
na hipótese da América do Sul ou qualquer dos
seus países integrarem uma forma de poder que os
ameace diretamente ou aos seus interesses, a
política dos EUA para o Continente se alterará,
tal como aconteceu no caso das bases soviéticas
em Cuba. Para eles, a Doutrina Monroe inteira
foi construída ao redor do princípio de
neutralizar uma possível e tão próxima ameaça e
sua própria proteção. Um outro exemplo foram
os acontecimentos na Nicarágua e no Chile quando
a interferência dos Estados Unidos ocorreu em
razão das possibilidades de criação de
oportunidades que os soviéticos poderiam
explorar. Sempre na linha mestra de seus
interesses estratégicos, podemos observar o
interesse dos EUA com respeito à presença de
elementos nazistas na Argentina antes do final
da Segunda Grande Guerra, em 1945, e a sua
indiferença com relação ao mesmo tema depois do
final da guerra.
No reverso do espelho, onde se mira Washington, não se pode
deixar de perceber que, apesar do foco do
interesse dos EUA em Cuba ser anterior a 1999,
suas tentativas de desestabilização da ilha
foram permanentes. Do mesmo modo, o governo
Bush, costumeiramente, demonstrou seu desagrado
frente à política estabelecida por Chavez na
Venezuela. Não é segredo que a Washington seria
agradável a sua retirada como presidente do
governo. Mesmo sem manifestar um interesse
obsessivo pelos assuntos internos venezuelanos,
os EUA, têm em Chavez um incômodo que gostariam
de anular, notamente, agora quando se aproximam
da vizinha Colômbia. À parte o fantasma das
drogas e a atuação guerrilheira das FARCS,
motivo invocado para o acordo de estabelecimento
de bases americanas em território colombiano, o
momento atual é de prudência. Uma má atuação do
presidente da Venezuela, em episódios na
fronteira com a Colômbia, pode agravar os riscos
de desavenças. O mal esclarecido caso de armas
suecas compradas pelo seu governo irem parar nas
mãos da guerrilha colombiana é um ingrediente
inusitado. Ao contrário do pensamento irônico
de muitos analistas políticos, a entrada dos
Estados Unidos no jogo independe da presença “de
terroristas do Islã na Venezuela”.
Do ponto de vista dos EUA, uma intervenção que derrocasse
Chavez teria dificuldades em ser levada a cabo.
A necessidade e o fornecimento do petróleo
venezuelano não são, porém, nenhuma garantia
para que tal não aconteça. Um golpe surpresa na
Venezuela, certamente seria facilitado pelos
norte americanos e ,mesmo que assim não fosse,
os antecedentes criados pelos Estados Unidos
na região o tornariam suspeito. O aumento do
sentimento antiamericano, na América Latina,
pode não ser significante, mas é no mínimo
desconfortável. Obama sabe que, nesse momento,
o aumento da hostilidade aos Estados Unidos
faria aflorar os ressentimentos dos dias do
golpe contra Allende, ainda uma recordação
amarga. Os Estados Unidos têm, portanto, razões
para tentar uma reconquista regional, com um
mínimo de respaldo que seja. O país já tem
problemas com europeus, palestinos, árabes e
não resolveram as situações de minorias como os
curdos, em nome das quais permitiram a forma
bárbara de justiçar Saddham Hussein no Iraque.
Isto sem mencionar a cupidez pelo petróleo
iraquiano.
A política norte americana idealizada para a Venezuela
parece se encaminhar para uma tentativa de
levá-la ao isolamento. Apesar das considerações
de não poder a Venezuela “ferir os Estados
Unidos”, as coisas não são assim tão simples. A
premissa de que se toda a América Latina
aderisse ao ideal bolivariano de Chavez tal não
se constituiria um problema para os EUA é no
mínimo jactanciosa. Mesmo estando ausentes como
um poder global significante para desafiar os
Estados Unidos, a ideologia de Chavez, propagada
por toda a América Latina, claramente aumentaria
a distancia com Washington, revelando-se não se
constituir em assunto puramente só de interesse
latino americano. As ameaças dentro do quadro
de política externa também repousam, só para
exemplificar, na ausência de cooperação, na s
reticências de adesão a um acordo de interesse
externo, no não cumprimento de compromissos
acordados, na não votação acompanhando as
posições de uma grande potência, dentre outras
dificuldades e restrições. Assim, os atritos
verbais com Bush e as indiretas do presidente
Obama, dirigidas a Chavez demonstram um mal
estar crescente entre os dois países e a falta
de hábito dos EUA de se verem diretamente
“alfinetados”. A ameaça que a Venezuela possa
representar aos Estados Unidos, portanto, pode
se distanciar dos riscos da não oferta do seu
petróleo, independente dos prejuízos para o
país. Isto explica, em parte, o endurecimento
das relações entre a Venezuela e os Estados
Unidos e o fato da manutenção de uma relação
fechada e restrita à compra e venda do
petróleo.
Para os venezuelanos, os preços altos do produto, subsidiam
os seus programas sociais e fortalecem a sua
posição como aliados regionais. Para a paz
regional, é do interesse sul americano o bom
andamento desse acordo mútuo entre os EUA e a
Venezuela na área do petróleo. A nenhum país do
Continente interessa uma guerrilha no Amazônia
Ambos os países podem continuar fazendo desse
interesse comum os cernes de suas relações, pois
esta é a parte do assunto no qual eles
concordam. Visto por um ângulo, longe do
espelho, realmente não há um problema
significativo.
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