Domingo, 11 Janeiro 2015 17:46

A Guerra do Fim do Mundo

 
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Desde o começo da “Guerra Fria”, o mundo chegou a vários momentos de confrontação “olho-no-olho” com os soviéticos, cujo desfecho final foi evitado por terem eles dado um passo atrás. Afinal, o que restaria da União Soviética, se tais confrontos fossem adiante?

Nada. Tudo se perderia. Isso porque o fanatismo soviético era político-ideológico e não religioso. Hoje enfrentamos fanáticos religiosos, para quem a destruição total do mundo, inclusive a destruição deles mesmos, será uma grande vitória da sua religião.

Nos recentes noticiários, encontram-se referências sobre ameaças que os lideres religiosos iranianos andam fazendo ao mundo, de uma guerra nuclear que causaria o fim de Israel e de toda humanidade, e provocaria “a volta do Mahdi”. Essa é uma figura mística islâmica, que teria existido no passado e que, de acordo com as profecias deles, voltará para governar a terra, que terá toda se convertida ao islã. A ameaça é de guerra total, contra a humanidade não islamita, à qual o mundo não tem prestado a devida atenção. Deveria fazê-lo, pois vem de um fanático religioso para quem a própria morte será uma vitória do seu deus. Isso é bem diferente das antigas confrontações com os soviéticos.

Uma das primeiras confrontações USA/União Soviética, ocorreu em 1961, na chamada “Crise dos Mísseis Cubanos”. Falava-se que o mundo chegara a “um minuto de sua destruição total”. Essa definição foi correta. Mas não era ainda o tempo do fim-do-mundo, do Armagedom bíblico. A confrontação foi “olho-no-olho”, mas no final “alguém piscou”, assim foi dito por um jornalista americano. Houve um recuo.

Outro momento crucial, do qual poucos tiveram conhecimento, ocorreu no outono de 1968, que resultou numa contemporização – demonstrando que havia um pouco de bom-senso da parte dos russos. Esse foi o acordo chamado SALT – Statregic Arms Limitation Treaty. Porém antes que esse tratado ocorresse, as partes estiveram prontas a se esganarem mutuamente. Tomei conhecimento disso através de uma colega da American University, chamada Alicia Edwards, tradutora oficial da OEA e do Governo Americano.

Alicia Edwards era filha de um professor de medicina de Harvard, de origem judaico-polonesa, que adotara o nome Edwards em lugar do nome polaco de difícil pronuncia para os americanos. Era uma moça de grande inteligência. Sua tese de doutorado, defendida no mesmo ano que a minha (1973), era tão filosófica e de tão difícil compreensão, que um dos membros da banca examinadora jocosamente disse que lhe daria a maior menção possível, ainda que não entendesse o que ela queria dizer com aquilo tudo.

Essa moça tornou-se tradutora de português e espanhol da OEA e do governo americano, tendo inclusive passado uns tempos da Universidade de Coimbra, onde fora esmerar um pouco seu conhecimento da fala lusitana.

Enquanto vivi nos States, mantínhamos contado ocasional, via correspondência e telefone, pois eu achava que ela tinha muitas informações interessantes, não disponíveis aos mortais comuns. Foi assim que, numa madrugada, no “outono” de 1968 - ela mesma me telefonou em total desespero. Falou que acabara de traduzir um documento, a ser enviado a todos os governos latino-americanos, sobre um possível confronto com a União Soviética, cujo teor era tão terrível que a deixara desestruturada. Estava pensando em fugir imediatamente para algum lugar, bem longe dos Estados Unidos, e me pedia conselhos para onde ela deveria ir. Recusou me dar detalhes do assunto, pois assim estaria ferindo seu juramento de tradutora, disse ela, mas me aconselhou a vir embora para o Brasil, pelo menos por alguns tempos.

Como eu não sabia o que lhe dizer ou responder, como um bom brasileiro lhe escrevi um “tratado” jocoso, de algumas páginas, dizendo que “o que não tem solução, solucionado está”. Se vamos morrer, então morramos todos juntos. Tempos depois ela se comunicou comigo mais uma vez, dizendo que tinha over-reacted, e que tudo estava bem. Porém nunca me disse o que a amedrontara tanto, pois isso feriria seu juramento de tradutora.

Tendo regressado ao Brasil, em 1973, nunca mais tive contato com essa amiga. Soube apenas que a mesma deixara o serviço da OEA e do governo americano, e montara um prestigioso escritório de traduções em Washington. Em face dos recentes acontecimentos na América Latina e no mundo, recentemente busquei entrar em contato com ela, em busca de informações não disponíveis a nós mortais comuns. Descobri que ela morrera, e que seu “spoil” estava todo em mãos de uma firma de advocacia de Washington. Finito est. Jamais saberei que momento tão terrível fora aquele, que tanto amedrontara aquela minha colega.

Estamos agora enfrentando mais uma grande crise, com ameaças a todo o Universo. No entanto, as pessoas no mundo continuarão a existir sem tomar conhecimento dessa “espada de Dámocles”, sobre suas cabeças, da mesma maneira como, tempos atrás, ignoravamos as crises USA/União Soviética. Ainda bem. Há muitos outros problemas, mais prementes no dia-a-dia, para a sobrevivência de todos. Se o Armagedom bíblico ocorrer, não há que se possa fazer para evitá-lo. Kaput.

Termino esta comunicação com minha frase favorita de Shakespeare, que bem define nossa ignorância das coisas terríveis que ocorrem no mundo, sem que tenhamos conhecimento das mesmas: “Há mais coisas entre os céus e a terra, Horácio, do que imagina vossa filosofia” (Shakespeare – Hamlet, Ato 1, cena 5).

Lido 1277 vezes Última modificação em Sexta, 22 Maio 2015 08:52
David Gueiros Vieira

PHD em História da América Latina, Mestre em história dos Estados Unidos da América, conferencista e um dos maiores especialistas brasileiros em História da Questão Religiosa do Brasil.